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Uma Associação de Bombeiros Voluntários não é como um qualquer grupo de pessoas que, motivadas, se congregam para atingirem determinado objectivo. Uma Associação de Voluntários, neste caso de Bombeiros, vive um ideal, vai prosseguindo vários objectivos, e prossegue esforçadamente empenhada na concretização do seu lema – “Vida por Vida” – carregando dificuldades. Para além disso, uma Associação de Bombeiros Voluntários é o espelho da vida de uma comunidade que a criou. Nela se retratam todos os anseios, realizações e dificuldades da população que representa. Sempre que o fogo lavra numa casa, indústria ou floresta, destruindo essas fontes de riqueza e de vida, ou sempre que o sangue humano corre nas estradas (como recentemente aconteceu de forma monstruosa na A25), ou de qualquer outro modo sempre que o perigo ameaça as populações, basta um toque de sirene para que esses incansáveis soldados da paz deixem as suas famílias, as suas ocupações ou o seu lazer (mesmo arriscando as suas vidas se a situação o exigir), acorram onde o perigo os reclama. Em frente deste, sempre unidos e demonstrando grande sentido de abnegação e altruísmo, a sua tarefa é uma só: socorrer o seu semelhantemente para que este se sinta em segurança. É neste espírito que, em 15 de Outubro de 1960 (conforme a data dos Estatutos de oito capítulos e 61 artigos), «é fundada, em Sever do Vouga, uma Associação de carácter humanitário e de duração ilimitada» (art. 1º), que «tem por fim criar e manter um corpo de Bombeiros Voluntários, socorrer feridos e doentes, e a protecção, por qualquer outra forma, de vidas humanas ou bens (…)» (art. 2º). Deveu-se esta iniciativa a um conjunto de trinta e quatro personalidades, de entre os quais o Sr. Manuel Manuel Marques da Silva e primeiro signatário e presidente da Câmara Municipal na época. O comerciante e mestre de música César de Figueiredo Bastos, o comerciante Acácio Lopes da Silva Lobo, seu irmão Norberto Lopes da Silva Lobo, o médico Dr. Manuel Augusto Santiago e Costa, a professora D. Beatriz Benigna de Lemos Ferreira e o Eng.º. Reinaldo Jorge Vital Rodrigues, que assinaram o pedido de autorização dos estatutos enviado ao Governador Civil do Distrito de Aveiro em 25 de Outubro de 1960, recebendo deste, resposta afirmativa a 2 de Fevereiro de 1961. A ASSOCIAÇÃO DE BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE SEVER DO VOUGA fez-se entrar na Fazenda Pública do concelho de Aveiro «com a quantia de um escudo para o Fundo de Beneficência de Alienados, nos termos do art. 8.º, da Lei de 4 de Julho de 1889». Todavia, início de vida desta Associação não foi nada fácil, como se dizia no art. 2º dos estatutos, a função principal desta, «é criar e manter um Corpo de Bombeiros», o anos de 1961 e 1962 passou e o Corpo de Bombeiros não aparecia, pelo que chegou a ser proposto pelas entidades competentes que esta fosse extinta, como se pode comprovar pelo ofício Nº 953-Pº. 15A de 24-6-1963, da Câmara Municipal, e dirigido a esta Associação. A Direcção, então presidida pelo Sr. Armelim da Fonseca e Santos, não esmoreceu e solicitou ao Inspector de Incêndios da Zona Norte que o Sr. Eng. Reinaldo Jorge Vital Rodrigues fosse nomeado 1º comandante, o que veio a acontecer, estava dado o segundo paço para a tão ambicionada criação do Corpo de bombeiros. Este objectivo só foi conseguido no ano de 1965, um grupo de 16 rapazes finalmente presta provas para bombeiro de 3ªclasse, (Ordem de Serviço da Inspecção de serviços de Incêndio da Zona Norte Nº 2/65, de 27-2 65), nascendo assim o Corpo de bombeiros. Ainda “bebé” este Corpo também passou por muitas e grandes dificuldades, não tinham quaisquer tipos de fardas, materiais ou equipamentos, tendo sido emprestados, pelos Bombeiros Velhos de Aveiro, uma motobomba e pelos de Vale de Cambra os quatro lanços de escada e as primeiras instruções foram ministradas no antigo Largo do Hospital, num edifício que actualmente alberga um supermercado. Na Av. Comendador A. Martins Pereira, num barracão propriedade de Avelino Pinto do Amaral, passou então a ser o 1º Quartel Sede da Associação de Bombeiros Voluntários de Sever do Vouga. Nesse tempo, no caso da ocorrência de fogo, não existia sirene para alerta, era o Sr. Comandante que com o seu carro, buzinando, percorria a vila e deste modo dava o alarme. Também não existia nenhum carro de fogo, pelo que a Garagem Amaral pós a disposição destes, e para transporte de pessoal e do pouco material, um velho pronto-socorro (por sinal vermelho), sendo deste modo que os bombeiros se deslocavam para os sinistros. A pedido da Direcção, o Ministério de Exercito, através do seu ofício Nº 4679/ de 22-9-1965, atribui aos Bombeiros uma viatura usada marca GALERA AUSTIN, por razões que se desconhecem esta viatura nunca chegou a Sever do Vouga. Foi então tentada a compra de um carro de incêndios usado aos bombeiros de Espinho, por este ser antigo e por diferenças no seu valor (Sever, do Vouga só oferecia 8 000$00 escudos), este negócio não se concretizou, por a viatura necessitar de grande e avultada reparação. Em 24 de Fevereiro de 1966, foi adquirido o primeiro carro de fogo de marca Land-Rover pelo valor de 160 000$00, tendo sido baptizado de PS 1. Este, ficou recolhido no referido quartel, onde haveria de sofrer um acidente e ficar bastante danificado sob o telhado do barracão que ruiu sobre a viatura. Por isto, a Câmara Municipal decide acolher provisoriamente os Bombeiros nos seus armazéns em frente ao Jardim do Lago, era o seu segundo quartel. Mais tarde, reclamando melhores condições para o seu desempenho, os Bombeiros Voluntários transferiram-se para um lugar mais duradouro e com melhores condições. Um edifício (casa de Habitação) de Armindo Tavares Coutinho ao lado da antiga Pensão Belavista, onde estes permaneceram durante 11 anos. Procurou esta Associação, logo após a obtenção do carro de fogo, adquirir uma ambulância, dada a sua notória falta para o transporte de doentes e sinistrados para o Hospital concelhio ou para outro locais nomeadamente Aveiro. Depois de solicitar subsídios para o efeito junto de diversas entidades, é junto da Fundação Calustre Gulbenkian, que se obtêm maior receptividade, e esta Fundação acaba por atribuir à Associação de Bombeiros Voluntários de Sever do Vouga, uma ambulância (nova) de marca SKODA, por factos que não foi possível apurar, esta ambulância nunca chega a Sever do Vouga. É em 1970 também por oferta da Fundação Calustre Gulbenkian, que finalmente chega a primeira ambulância (nova) de marca Volkswagen (uma pão de forma), com duas macas e algum material (era do melhor que havia para a época). Em 1974, tomou posse como 1º Comandante o Senhor Miguel Lopes de Almeida, funcionário bancário nesta vila e natural de Queluz. Em 1975, com a colaboração de muitos Severenses amigos e a comparticipação de entidades oficias, foi possível adquirir uma segunda ambulância nova, de marca Mercedes-Benz 240 D, por 391 240$00. Em 1977, quando se procedia a uma recolha de fundos através de uma campanha de venda de autocolantes, o Sr. Nelson Cruz, de Cedrim, oferece aos Bombeiros uma viatura ligeira de marca Volkswagen, passando desta forma a existir um carro de apoio. Ainda no ano de 1977, toma posse como 1º comandante, o Sr. Abel Jorge Elvas, dando novo impulso à Associação nomeadamente ao seu Corpo de Bombeiros, que então contava com um corpo activo de 28 elementos, um quadro auxiliar de 24 elementos e de 6 motoristas. Deu-se ainda o aparecimento (temporário) de um corpo feminino que muito veio engrandecer e apoiar nos peditórios e nos serviços de saúde. Não obstante os vários esforços realizados, os Bombeiros Voluntários de Sever do Vouga continuaram carecidos de uma maior e melhor frota, obrigando a recorrer muitas vezes ao auxílio das corporações vizinhas de Vale de Cambra e de Albergaria-a-Velha. Relativamente ao material de apoio, apenas possuíram durante muitos anos, duas motobombas, alguns lances de mangueira, uma motosserra e alguns extintores, um mínimo indispensável mas não desejável. A insuficiência de verbas não lhe permitia a compra de mais, melhor e sofisticado material ou mesmo a simples substituição do material danificado ou em fim de vida, quanto ao fardamento, este era apenas umas velhas fardas que em tempos foram da Legião Portuguesa. As receitas desta Associação Humanitária (e de tantas outras espalhadas por este país) eram (e são) manifestamente insuficientes e modestas. As dificuldades económicas continuaram a não libertar as Associações de Bombeiros Voluntários e a dotá-las de meios mais eficazes para o cabal desempenho das suas funções, limitando-as à sua débil sobrevivência. Os meios eram escassos, mas a vontade era muita. Nesta altura o quartel mantinha-se numa casa de habitação desde 1966, as instalações não eram de longe as melhores, no rés-do-chão só cabiam três das quatro viaturas e os poucos armários de madeira para guardar as fardas de trabalho, na parte superior deste prédio, funcionava a sala de Direcção, gabinete de Comando, uma sala de bombeiro, arrecadação de diverso material e ainda um rádio emissor-recpetor para comunicações. A instrução era ministrada num pequeno espaço livre na frente do edifício que servia de parada. As instalações eram exíguas e não serviam satisfatoriamente as necessidades da Corporação, no entanto, e até se conseguir outro imóvel de maior dimensão ou a construção de um quartel sede, este edifício ia solucionando e remediando, até que o senhorio decidiu inesperadamente apresentar no Tribunal da Comarca de Albergaria-a-Velha, uma acção de despejo contra a Associação de Bombeiros Voluntários de Sever do Vouga. A estupefacção foi geral. Evidentemente estranhando esta atitude, num artigo do Jornal O Comercio do Porto de 1 de Fevereiro de 1977, o jornalista Daniel Rodrigues comentava o facto do seguinte modo: «Poderá parecer mentira. Parecerá mas não é. Contra os Bombeiros Voluntários de Sever do Vouga entrou no Tribunal uma acção de despejo (…)». Mais à frente: «Segundo nos informou um elemento da Direcção. O senhorio terá razão, mas certo é que os bombeiros não têm, de momento, qualquer imóvel para onde possam mudar, onde possam exercer a sua benemérita acção em prol do seu semelhante». Acentuando as dificuldades por que passavam os Bombeiros Voluntários nessa época, o jornalista Carlos Naia fazia publicar no Jornal de Notícias de 6 de Fevereiro do mesmo ano, o seguinte: «Já não bastaria a circunstância de não terem podido contar com instalações condignas e funcionais, apesar dos inestimáveis serviços prestados à comunidade, sem receber um chavo, (…) em breve serão postos ao ar livre pelo senhorio. Ser voluntário, por ironia, também obriga a correr este risco. Não bastaria já as inúmeras dificuldades por que passava esta Associação, da qual referimos a própria inexistência de um telefone próprio, de tal modo que as chamadas de socorro são feitas para o posto da GNR, que manda tocar a sereia». Tirando partido da demora do processo de acção de despejo que a Associação de Bombeiros Voluntários contestou, a Direcção e Comando decidiram deitar mãos à obra e tornar realidade o velho sonho da construção de um quartel sede próprio. E, nunca desanimando perante as enumeras dificuldades surgidas, a louvável acção desenvolvida pelo Comando e Direcção daquela época teve os seus frutos, resultando na compra de um terreno por 600 000$00, a oferta dos serviços do benemérito Arq. Gaspar Domingues para a execução do projecto. Louvável, também, foi a atitude beneficente do empresário local Eng. Ferreira de Castro, que custeou toda a burocracia, e desta forma nasceu o actual quartel. Os Bombeiros, porque são soldados da paz, e como pacíficos que são, acataram a acção de despejo e deixaram o edifício que utilizaram de 1966 a 1978, recorrendo humildemente à feitura dum barracão em frente à ex. Garagem Amaral, num terreno emprestado pelo Sr. António Vitorino Martins. Em 1980 assume o Comando o Sr. Porfírio Cotrim Simões, cargo que assumiu durante dois anos, sendo substituído em 1982 pelo Sr. António Martins Lourenço, que passou de Ajudante de Comando a 1º Comandante. Sendo este um Comandante que provinha do interior do corpo de bombeiros, desde Bombeiro de 3ª classe, tendo um maior e melhor conhecimento das carências, do pessoal e de todo o universo dos bombeiros, foi possível melhorar, aumentar e elevar a capacidade técnica do corpo activo. È de salientar que foi neste período que apareceram várias viaturas para o combate a incêndios, nomeadamente um autotanque todo terreno, com chassis GMC oferecido pelo Exercito e montado na Metalovouga, uma carrinha de nove lugares de marca Bedford, esta para transporte de pessoal, ambas as viaturas, oferecida pelo Sr., Eng. Ferreira de Castro.

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Dois Severenses, Júlio Rodrigues Santos e António Rodrigues Santos oferecem um pequeno jeep, pelo Serviço Nacional de Bombeiros foram entregues duas viaturas: um autotanque pesado Mercedes/Baribi e um jeep Land Rover, ambos todo o terreno e devidamente apetrechados para o combate de incêndios florestais. Além disto, foi incrementado o desporto, que havia sido introduzido pelo Comandante Elvas. Foi ainda nesta altura que foram atribuídas à Associação de Bombeiros Voluntários de Sever do Vouga, pela liga dos Bombeiros Portugueses, duas importantes condecorações, Medalha de Prata 2 Estrelas, e Medalha de Ouro Duas Estrelas, por relevantes serviços prestados ao ser humano. Entretanto, a escritura pública da compra de terreno para o novo quartel realiza-se a 16 de Novembro de 1979, executa-se o projecto de construção, a primeira pedra è oficialmente lançada em 2 de Dezembro de 1981, executam-se as obras e o quartel è ocupado em 1985. O tão desejado quartel, é um imóvel com três pisos, torre de casa-escola com cinco pisos, ocupa uma área de 2000m2, distribuídos pelo parque de viaturas, salas de aulas, camaratas, ginásio, secretaria, gabinetes da Direcção e Comando, em separado, casa de habitação para quarteleiro, tendo ainda uma ampla parada. Com uma casa condigna, os Bombeiros preparavam-se para uma prestação de serviços de maior qualidade, eficiência e rapidez, quando de repente surgem contrariedades que não tendo nada a ver directamente com a causa do voluntariado, acabam por prejudicar todo o trabalho de alguns anos; com o inesperado afastamento do Comandante, e mais tarde, do Ajudante de Comando. Em Dezembro de 1986 era empossado como 1º Comandante o Senhor Valdemar da Silva Coutinho. Esperava-se uma nova era, que uma nova página se voltasse, não obstante as esperanças de ressurgirem importantes mudanças, tal não aconteceu, e com o seu pedido de demissão mais uma vez os Bombeiros ficavam sem Comandante. Em Maio de 1988 foi empossada nova Direcção para o biénio de 1988/89, tendo como seu presidente o Prof. Evaristo Pereira Rodrigues, com uma equipa cheia de energia, logo começa a trabalhar tendo como prioridade a indigitação do Comandante. O que viria acontecer com a mudança de Tesoureiro para 1º Comandante do Sr. Manuel Nogueira Tavares da Silva, tomando posse em Maio de 1989. Todavia, este período foi sem dúvida um tempo muito escuro e sombrio, apesar de se ter instalações novas, os Bombeiros hibernaram durante bastante tempo. Faltava ainda preencher os cargos de 2º Comandante e de Ajudante de Comando, quando deveriam existir três chefes, não havia nenhum, para o lugar de três subchefes, apenas existia um, deveriam existir seis bombeiros de 1ª classe, mas só havia um, de 2ª classe haviam quatro, quando devia haver doze, finalmente, para 3ª deveriam ser trinta e seis, mas eram só 1/3 desse número. Feita a travessia do deserto, a década de noventa prometia mudanças. Mudanças essas, que apareceram logo no 1º dia de 1993, com a entrada ao serviço de mais uma ambulância. Em Maio, numa só cerimónia, tomava posse de 1º Comandante, o Senhor José Bastos Rocha, e entravam ao serviço, um autotanque e um veículo de combate a fogos florestais. O sol voltou a sorrir, foi necessário arregaçar as mangas porque tinha chegado a hora de se trabalhar, no sentido de devolver a capacidade e o prestigio a uma instituição onde o muito que exista, o copioso que se faça, é sempre pouco, porque será sempre feito com dedicação e abnegação em prol de toda a sociedade. A partir deste acto, a Associação e o seu Corpo de Bombeiros, caminhou sempre num crescendo, foi possível aumentar o número de elementos, prepará-los e capacitá-los para os desafios dos tempos actuais.

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